A Igreja de Deus e a Minha Igreja



No último artigo que escrevi "Igreja? É necessário?", o objetivo foi falar sobre a importância do convívio em uma comunidade cristã, como parte do “ser cristão”, para despertar, exercer e amadurecer a fé; no entanto, percebi que seria interessante refletir a respeito da diferença entre as dimensões humana e divina no significado de “igreja”, sob o ponto de vista bíblico. Será que a “minha igreja” é a “igreja de Deus”? A “igreja de Deus” é a “minha igreja”?

“Cristo é como um corpo, o qual tem muitas partes. E todas as partes, mesmo sendo muitas, formam um só corpo. Assim, também, todos nós, judeus e não judeus, escravos e livres, fomos batizados pelo mesmo Espírito para formar um só corpo. E a todos nós foi dado de beber do mesmo Espírito. Pois o corpo não é feito de uma só parte, mas de muitas.” (1 Coríntios 12:12-14)

A igreja, no Novo Testamento, é constantemente comparada a um corpo (biológico/humano), formado por diversas partes (pessoas, grupos) que, apesar de apresentarem origens e histórias muito diferentes, por vezes, até culturalmente antagônicas, são unidas pelo Espírito, através da negação da sua “trajetória humana” e crenças pessoais, a esse organismo “homogêneo”, altamente integrado pelos seus “órgãos”, que se complementam de forma singular e perfeita. Para um judeu, no primeiro século, por exemplo, era inconcebível conviver espontaneamente com um samaritano, considerado impuro, “inimigo” do povo escolhido; de forma semelhante, para um homem “livre”, na época, seria impossível ter relacionamentos com escravos, pois havia um abismo entre essas “categorias sociais”; mas Paulo afirma que o Espírito transforma pessoas completamente “incompatíveis” em iguais, participantes do mesmo corpo, unidas pelo mesmo propósito (Romanos 12:4-8).

“(…) cresçamos em tudo até alcançarmos a altura espiritual de Cristo, que é a cabeça. É ele quem faz com que o corpo todo fique bem ajustado e todas as partes fiquem ligadas entre si por meio da união de todas elas. E, assim, cada parte funciona bem, e o corpo todo cresce e se desenvolve por meio do amor.” (Efésios 4:15b-16)

O corpo não nasce pronto, precisa ser alimentado para crescer e alcançar maturidade; e quem o alimenta é Cristo. As partes só receberão do seu alimento, se estiverem ligadas umas às outras, e todas à Cristo. Dessa forma, a “igreja de Deus” é reconhecida somente por Ele, que é o único capaz de conhecer todas as coisas, sondar corações, julgar as intenções, as motivações e saber quem está realmente ligado ao corpo de Cristo (Mateus 7:21-23). A “igreja de Deus” é invisível para os homens, não pode ser delimitada por padrões humanos de organização ou julgamento, sendo assim, não podemos afirmar que esta ou aquela denominação é a “igreja de Deus”; da mesma forma que não podemos afirmar que esta ou aquela pessoa, apenas por estar frequentando determinada comunidade, faz parte da “igreja de Deus”.

A ideia do corpo (igreja) ressalta que é necessário que se estabeleçam comunidades cristãs, ou seja, que se reúnam aqueles que crêem em Cristo, para que possam ser transformados pelo evangelho, com a direção do Espírito, até que se chegue à unidade, ou seja, a uma profunda convergência de valores, modos de agir e pensar alicerçados naquele que é a cabeça do corpo, independente daquilo que é visto socialmente como correto ou aceitável. Na época das igrejas primitivas, era comum que essas comunidades fossem constituídas por cidades: Igreja de Corinto; de Éfeso; de Filipos; etc; implantadas e direcionadas pelos primeiros missionários, que eram os apóstolos e seus discípulos (2 Coríntios 2:1). Também era comum haver grupos menores que se reuniam em casas, de acordo com a sua afinidade e proximidade (Romanos 16:3-5). Era o começo do cristianismo, a sua direção partia praticamente de um único grupo, com poucas divergências ou variações.

Com o passar do tempo, cresceram as divergências; os desvios; as variações e doutrinas; o ser humano “criou seus próprios mestres” (2 Timóteo 4:3) e sincretismos; no entanto, há aqueles que se voltam para a origem, à Palavra, procurando entender e seguir a verdade bíblica, e se organizando de variadas formas, próprias à sua época, mesmo tendo um mesmo mestre. É importante frisar que, apesar da liberdade que o ser humano tem para conhecer e decidir se quer ser um seguidor de Cristo, um filho do Altíssimo, podendo exercer seus dons e fé de formas variadas e “criativas”, como, também, a adoração dedicada à Deus; não temos autorização do Senhor para “flexibilizar” a sua justiça, adequando-a segundo nossos gostos, desejos, épocas ou vontades particulares e coletivas.

Deus capacitou o ser humano para que, pelo exercício de seus dons, alcance a unidade da fé e do conhecimento de Jesus. Em sua onisciência, o Senhor conhece àqueles que desejam conhecê-lo verdadeiramente (“Igreja de Deus”), deixando de lado a sua própria vontade para alcançar a plena comunhão com o Pai. Não é a participação em determinada comunidade ou a devoção a certos preceitos humanos, por mais nobres que possam parecer, que promoverão o crescimento e a unidade, mas o esvaziamento de toda teoria e doutrina humana, “abrindo espaço” para o Espírito. Para fazer parte da “igreja de Deus”, devemos trabalhar para convergir em Cristo, e não para nos fechar em modelos de “pretensa sabedoria humana”.

“Os judeus pedem milagres como prova, e os não judeus procuram a sabedoria. Mas nós anunciamos o Cristo crucificado — uma mensagem que para os judeus é ofensa e para os não judeus é loucura. Mas para aqueles que Deus tem chamado, tanto judeus como não judeus, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.” (1 Coríntios 1:22-24)

Como vimos, não há como conhecer a “igreja de Deus”, e nem mesmo ter certeza da vocação desta ou daquela denominação. O chamado do Pai é individual, assim como a decisão de empreender a construção da nossa fé e comunhão com o Senhor, mas o caminho a ser percorrido exige a convivência comunitária, dentro e fora da igreja, para que todos os filhos se tornem um em Cristo. Deus deixou a sua igreja como modelo para que possamos nos organizar, com certa liberdade, até que alcancemos a unidade, pelo conhecimento do Senhor. Desta forma, devemos escolher “fazer parte” de uma comunidade, atuando ativamente para o propósito do Pai, com espírito de humildade; misericórdia; perdão; amor e união; e refletindo a sua luz para espalhar a sua mensagem (Mateus 5:16). Podemos escolher onde estar (em qual igreja?) e como agir (organização, liturgia), mas é o Senhor quem nos adota e confirma como filhos, participantes da sua graça e justiça, segundo a sua vontade; e é a Ele que devemos honrar e prestar contas. Hoje sou parte da igreja que escolhi, mas meu desejo é ser considerado por Deus como membro de sua igreja, da qual Cristo é a cabeça.

“Aos que conseguirem a vitória eu darei o direito de se sentarem ao lado do meu trono, assim como eu consegui a vitória e agora estou sentado ao lado do trono do meu Pai. Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas.” (Apocalipse 3:21-22)


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