Justiça e Legalismo



“Foi assim o nascimento de Jesus Cristo: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José, mas, antes que se unissem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Por ser José, seu marido, um homem justo, e não querendo expô-la à desonra pública, pretendia anular o casamento secretamente.” (Mateus 1:18-19)

O versículo acima instiga a curiosidade quando se atenta para o fato de que José fora considerado justo mesmo sem “cumprir a lei” com todo o seu rigor; apesar de estar completamente amparado, não só pela Lei de Moisés, mas por toda a tradição religiosa da época, que estimulava severos julgamentos e penas àqueles surpreendidos em transgressões. Um bom exemplo foi o caso da mulher adúltera, apresentado a Jesus (João 8:3-11) pelos líderes religiosos. Afinal, se a Lei diz que a mulher surpreendida em adultério deveria ser apedrejada (João 8:5), porque poupá-la, contradizendo, assim, a norma?

“Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: ‘Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela’.” (João 8:7)

Jesus coloca aos questionadores uma pergunta simples: “Quem pode julgar o outro sem condenar a si mesmo? ” Para ser aplicada com todo o seu rigor, a Lei pressupõe que haja justos, completamente perfeitos no seu cumprimento, e, por isso, aptos a condenar injustos; ou seja, exemplos de integridade plena, merecedores de serem colocados na condição de juízes do comportamento e da moralidade. No entanto, tanto no exemplo específico apresentado acima, como de um modo geral, considerando a prática da justiça de Deus pelo ser humano, sobretudo do ponto de vista moral, diante da Lei, todos são transgressores, sendo, assim, incapazes de exercer juízo sobre os outros (Romanos 3:10-12).

Apenas Jesus poderia ter condenado aquela mulher, já que era o único justo diante da Lei, mas essa não era a sua missão. Ele veio para “salvar o que estava perdido” (Lucas 19:10), e não para destruir, ou antecipar o julgamento de Deus (1 Coríntios 4 :5). Os seus propósitos eram a graça, a misericórdia e o amor aos perdidos, atributos dificilmente encontrados na sociedade em que viveu. José, apesar de considerado justo, não procurou agir no pleno rigor da Lei, queria, apenas, fazer o que julgava necessário, sem aproveitar-se para se vingar. Mesmo diante da possibilidade de ter sido traído e desonrado por sua noiva, não pretendia retribuir, mas, somente, desfazer o compromisso. Era uma atitude rara naquela sociedade, digna de observação e destaque.

Quem pode atirar a primeira pedra? Quem é digno de exercer juízo sobre outros?

“Vi um anjo poderoso, proclamando em alta voz: ‘Quem é digno de romper os selos e de abrir o livro? ’ Mas não havia ninguém, nem no céu nem na terra nem debaixo da terra, que podia abrir o livro, ou sequer olhar para ele.” (Apocalipse 5:2-3)

Exercer juízo é algo muito sério; ao julgar e condenar pessoas estamos colocando-nos em uma posição que pertence a Deus. Não somos dignos de tal empreendimento; além disso, essa não é a nossa “vocação”, não fomos criados para exercer juízos, e sim, misericórdia (Oséias 6:6). Se o foco do discípulo é ser parecido com o Mestre (Jesus), que mesmo sendo perfeito não condenou, mas veio ensinar como amar e perdoar, não podemos nos colocar acima Dele, “ultrapassando” o seu ensino e exemplo (João 13:13-15 / 2 João 1:9). A boa prática do cristianismo não consiste em cumprir regulamentos, nem deve levar o ser humano a pensar que está acumulando divisas como um militar em sua carreira; o “crescimento espiritual”, se é que essa expressão é a mais adequada, não se dá de forma hierárquica, quando àqueles que exercem determinadas funções, por mais tempo e freqüência, são promovidos a estágios mais elevados, sendo vistos como superiores em merecimento e poder (Lucas 22:24-26); ao contrário, o verdadeiro crescimento no conhecimento de Deus e nos atributos apresentados por Cristo, deve revelar disposição em servir; humildade em ensinar e grande alegria em participar da natureza Divina, rica em amor e misericórdia (Filipenses 4:4).

“(...) ‘Estes homens contratados por último trabalharam apenas uma hora, e o senhor os igualou a nós, que suportamos o peso do trabalho e o calor do dia’. Mas ele respondeu a um deles: ‘Amigo, não estou sendo injusto com você. Você não concordou em trabalhar por um denário? Receba o que é seu e vá. Eu quero dar ao que foi contratado por último o mesmo que lhe dei.’” (Mateus 20:12-14)

A parábola da vinha (Mateus 20:1-16) é muito interessante para refletirmos na diferença que há entre a justiça de Deus e a justiça humana. Se considerarmos que temos inúmeras leis trabalhistas (CLT – Consolidação das Leis do Trabalho), que visam proteger o trabalhador formal de possíveis injustiças e abusos praticados pelos patrões, parece que a reclamação dos trabalhadores que começaram a trabalhar mais cedo na vinha é “justíssima”; diante dos olhos humanos, a sua indignação é completamente compreensível. Os que trabalham em uma empresa, na maioria dos casos, são pagos pela quantidade de horas de trabalho exercidas. É usual que os trabalhadores sejam controlados pelo “ponto”, que marca o tempo diário da atividade exercida. Quando se fica mais tempo do que o acordado em contrato (horas extras), a empresa deve pagar um adicional, estipulado por lei. Então qual é o ponto? O que está errado?

Na verdade, o que está errado é o nosso ponto de vista. Se olharmos para a vida apenas sob a ótica dos padrões humanos, que se baseia na aparência, na justiça da compensação e do merecimento (1 Samuel 16:7), dificilmente compreenderemos a justiça de Deus, que se baseia na graça, no amor e no perdão. Nosso Pai é paciente, deseja que todos cheguem ao arrependimento (2 Pedro 3:9), espera o tempo de maturação de cada pessoa, o refinamento da sua visão; a transformação exercida pela compreensão da graça em sua vida e o reconhecimento de que nada merece, mas tudo recebeu do Criador (Mateus 5:3). O Senhor deseja derramar a sua graça sobre todos os homens, desde aqueles que se converteram muito cedo e têm trabalhado arduamente para a colheita; até os que demoram a compreender a sua obra, mas acabam por curvar-se diante dos seus planos. Todos recebem do seu amor incondicional e têm a chance de engrossar o contingente do Reino; no entanto, a inveja e a falta de verdade na adoração de cada um transformam muitos primeiros em últimos; assim como a alegria de receber a redenção depois de uma vida tão distante de Deus, por muito tempo, transforma últimos em primeiros (Mateus 20:15-16).

Infelizmente, em muitas ocasiões, cristãos são mais ávidos por obter a justiça humana do que de propagar a justiça divina, e digo isto não apenas em questões cotidianas, mas, inclusive, em suas atividades ministeriais e relacionamentos dentro das congregações (1 Coríntios 6:7). Reivindicam-se posições e recompensas (Mateus 20:21); há dificuldade de submeterem-se uns aos outros (Filipenses 2:3); a regra da compensação sobrepõe-se à “regra de ouro” (Mateus 7:12); e esta falta de prática da verdadeira justiça acaba por estimular a crítica e a tepidez (Apocalipse 3:16-18). Quando vivemos baseados em conceitos humanos, por mais nobres que possam parecer, corremos o risco de distanciarmo-nos da Lei perfeita. A Mensagem da Cruz deve constranger e transformar (2 Coríntios 5:14-17), não apenas mudar alguns preceitos morais, mas fazer nova criação, onde de tudo nos despojamos (crenças, práticas, conceitos, desejos, entendimento) para deixar que o Criador possa fazer a sua (“nova”) obra em nossas vidas (2 Timóteo 3:16-17).

“Gostaria de saber apenas uma coisa: foi pela prática da lei que vocês receberam o Espírito, ou pela fé naquilo que ouviram? Será que vocês são tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, querem agora se aperfeiçoar pelo esforço próprio? ” (Gálatas 3:2-3)


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